segunda-feira, 25 de março de 2013

Adolescente livre!


Adolescente livre!

Seu pai está muito chato pegando no seu pé por causa das suas notas? Sua mãe está insuportável por não permitir que você deixe seu quarto do jeito que você quer? Não aguenta mais ter que economizar nas mensagens de celular? Você não suporta mais ter que lavar a louça, arrumar sua cama, colocar sua roupa suja no cesto, ter que desligar o videogame porque eles acham que já está exagerando, ter que abaixar a música só porque eles acham que incomoda os vizinhos? Então livre-se deles! Arrume um emprego, alugue uma quitinete, pague seu próprio celular, pague a internet, a tevê a cabo, aluguel, comida, pague uma faxineira pra lavar sua roupa e a sua louça, e descubra, talvez tarde demais, que seu salário não vai dar nem pra metade disso, e que você vivia no paraíso e só reclamava. Então pare de ser chato, ajude sua mãe, estude pra valer, faça seu pai ter orgulho de você, desligue o videogame e vá fazer algo útil. No entanto, se você está fazendo tudo certo e seus pais estão orgulhosos de você, parabéns e siga em frente.  (Marcos Meier. Seus livos estão no site www.kapok.com.br)

segunda-feira, 11 de março de 2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

Marcos Meier e os livros digitais

Cada aluno aprende num ritmo com os livros digitais. Como lidar com isso? Se o tablet travar em sala de aula, o que fazer? O professor terá apoio para essa nova realidade? Essas e outras perguntas serão respondidas por Marcos Meier em sua coluna "A arte de educar" no jornal Bom dia Paraná da rede Globo. — em RPC TV

segunda-feira, 4 de março de 2013

(TDNH) Transtorno de Déficit de Natação e Hidrofobia.


(TDNH) Transtorno de Déficit de Natação e Hidrofobia.

Dona Marta acabou de receber uma notícia terrível sobre seu filho, o Augusto. Ele tem TDNH - Transtorno de Déficit de Natação e Hidrofobia. É sério. A escola percebeu que todas as crianças da idade dele já sabem nadar, mas o coitado do Augusto, não. Na verdade, ele não sabe nadar e morre de medo de água, tem hidrofobia. Não quer nunca mais entrar na piscina, pois quase se afogou na última tentativa.
Por amor ao menino, a escola chamou a família e solicitou que o Augusto passasse por uma avaliação psicológica, neurológica e de desenvolvimento motor. Dona Marta, muito disposta a ajudar seu fofucho, o levou para os especialistas sugeridos pela escola. Logo veio o laudo: TDNH. Os médicos lhe prescreveram um ansiolítico para tirar o medo e um relaxante muscular para que ele pudesse soltar mais os braços e as pernas quando fosse atirado na piscina.
- Medicação é tudo de bom, faz cada milagre, não é mesmo? - Disse a professora para a mamãe.
- Espero que isso resolva, pois não aguento ver o coitado do Augustinho ficar para trás na natação. Se todas as crianças já sabem nadar e ele não, deve haver um problema sério mesmo. Ainda bem que vocês me alertaram e agora a gente pode ajudá-lo. Foi bom. Obrigada professora!
- Não foi nada, dona Marta, só fizemos o nosso trabalho, estamos aqui para ajudar.
No dia seguinte, o professor de natação jogou o Augusto no meio da piscina, para desespero do menino. Ele se debateu loucamente até que o André, seu amiguinho, o salvou.
O professor, falando com a coordenadora, disse:
- Deu pra ver que esse menino é um TDNH mesmo. Ele tem muita dificuldade no aprendizado da natação, suas limitações são gritantes em comparação ao desempenho do restante da turma. Se não fosse o André, ele ia engolir muita água até sair da piscina.
Já fora da água, o André perguntou:
- Augusto, por que você tem que tomar remédio mesmo?
- É que eu tenho TDNH, eu não consigo nadar.
- Ah. Mas alguém já te ensinou a nadar?
- Não, nunca me ensinaram. Deve ser porque eu tenho essa doença.
- Hum, deve ser. Tomara que um dia você sare né?
- Tomara. Quando eu sarar vou aprender a nadar. Aí não vou mais precisar dos remédios. Vamos tomar banho? – E os dois foram ao vestiário trocar de roupa e se preparar para a próxima aula, sem perceber a injustiça que o mundo adulto está cometendo.
Você professor, está achando tudo um absurdo? É exatamente isso que acontece com milhares de crianças todo ano em nosso país e no mundo! São diagnosticadas como TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. No entanto são crianças ativas, que gostam de correr, brincar, pular e mexer em tudo.

Texto retirado da obra Mediação da Aprendizagem na Educação Especial dos autores Gislaine Budel e Marcos Meier. Editora IBPEX 2012. Disponível no site www.kapok.com.br

domingo, 3 de março de 2013

Igreja de um crente só.


Igreja de um crente só.

Tem muita gente por aí dizendo que é cristã, mas que segue o cristianismo de um jeito particular, só seu. Até aí, não vejo grandes problemas, pelo contrário, pois Deus não tira nossa personalidade para nos fazer de vacas presepiais retardadas seguidoras de inutilidades vivenciais, mas contradizer Jesus, é outra coisa.
Se o cara afirma ser cristão e diz que o muçulmano deve morrer, que o espírita é do diabo ou que os países que perseguem os cristãos deveriam sofrer enchentes, furacões ou terremotos, não entende o princípio básico do cristianismo: amar até mesmo o inimigo.
Se o sujeito diz para um crítico: “você vai morrer no inferno”, não entendeu nada sobre o perdão que o próprio Cristo ordena.
Se o cristão se deixa enganar por pastores corruptos que dizem “pague isso ou aquilo para entrar no céu”, não entendeu que a vida eterna é de graça, presente divino.
E por último: se alguém afirma ser cristão e julga as outras pessoas condenando-as por suas ideias ou comportamentos, nem menos leu o texto “não julgueis para não serdes julgados”. Afastar-se em silêncio, é também uma forma de julgar. Não querer nem conhecer uma pessoa que pensa diferente, também é.
Assim, é melhor aprender a amar, pois: “ame a teu próximo como a ti mesmo”  e “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” é toda a essência de quem devemos ser e de como devemos agir.
Portanto, se alguém diz ser cristão, tá na hora de por em prática pelos menos os princípios básicos do cristianismo, senão vai fazer parte de uma igreja que não é de nenhuma denominação, mas a sua própria. Uma igreja de um crente só.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

NÃO SEJA ULTRACREPIDÁRIO

Não seja ultracrepidário.

Ou:  “Sapateiro, não vá além das sandálias.”

O escritor latino Plínio (o Velho) conta que havia na Grécia no século IV AC um pintor chamado Apeles que usava um artifício muito interessante para melhorar suas obras. Quando seus quadros estavam prontos, Apeles os expunha em frente ao seu ateliê para que os passantes pudessem observá-los e criticá-los. De posse dos comentários, o pintor podia melhorar ou até consertar algum erro que pudesse haver.

Certo dia, observou um homem parado em frente a um dos quadros. Apeles, saindo de seu esconderijo, perguntou-lhe a razão de tanta curiosidade. O homem então lhe disse que era um sapateiro e que, por conhecer seu ofício, percebeu um erro na sandália ali retratada. O pintor agradeceu e disse que consertaria o erro. Tendo percebido que o pintor acolhera sua crítica, ousou ir adiante criticando outros detalhes do quadro. Nesse momento o pintor barrou sua impulsividade dizendo: “ne sutor ultra crepidam”, ou seja, “sapateiro, não vá além das sandálias”. (Em português atual, diríamos: não seja ultracrepidário)

Há muitos profissionais intrometendo-se nas especialidades de outros. Médicos opinando sobre educação de filhos, artistas teorizando sobre filosofia, jogadores de futebol dando entrevistas sobre relacionamentos, mamães tentando ensinar como educadores devem fazer uma avaliação e professores fazendo diagnósticos de neurologistas ou de psiquiatras. Chega!

Quando a “boa vontade em ajudar” entra no lugar da opinião especializada, muitos erros podem acontecer e muitas informações superficiais são tomadas como científicas.

Quando pessoas de muita boa vontade, mas sem conhecer a profundidade dos fatos que envolvem sua vida, começam a lhe julgar ou opinar sobre o caminho que você deveria seguir, não diga: “não se meta”, pois pode soar muito grosseiro. Diga apenas:  “não seja ultracrepidário”. E se a pessoa não entender, diga-lhe para pesquisar no google. Com certeza cairá aqui.

Essa e outras reflexões você pode encontrar no livro “Mediação da aprendizagem na educação especial” dos autores Gislaine Budel e Marcos Meier. Disponível no site www.kapok.com.br

sábado, 15 de dezembro de 2012

DISCURSO DE MARCOS MEIER COMO CIDADÃO HONORÁRIO DE CURITIBA.


Boa noite!
Quero iniciar minha fala cumprimentando a excelentíssima sra. Noêmia Rocha presidente desta mesa, o vereador Jair César proponente dessa titulação e a todas autoridades aqui presentes, já nomeadas.
Em especial agradeço a presença de todos vocês que vieram me honrar com sua companhia. Essa noite só é linda porque você está aqui.

Me orientaram a ser breve, e apesar disso ser uma tortura pra mim, vou ser. Vou fazer o máximo para cumprir o prazo. Escrevi esse discurso no dia 12 de 12 de 2012 e tem aproximadamente 12 minutos. E isso não tem nada a ver com o fim do mundo. (Coisas de matemático).

Vou contar-lhes uma pequena história vivida por meu avô, o vovô José, pai da Jane, minha mãe coruja que a vida toda me apoiou e torceu pelo meu sucesso como pessoa e como profissional. (Obrigado mãe).
Meu avô tocava violino na igreja luterana da cidade de Imbituva, interior do Paraná. Por mais de 30 anos nunca faltou a nenhum dos cultos e a nenhum dos ensaios. Para homenagear tal atitude e disposição, a comunidade da época resolveu presenteá-lo com um corte de terno. Era um presente caríssimo, de muito bom gosto e que, com certeza, seria recebido como honra pelo “seu José”. Mas a surpresa foi grande. No dia seguinte à homenagem, meu avô foi até a loja, pesquisou o preço, e na próxima reunião devolveu cada centavo à comunidade. Disse:

- Que esse dinheiro seja melhor usado para as crianças pobres ou para outras necessidades que a igreja possa ter. Não aceito essa recompensa, pois nunca toquei violino para vocês, foi para Deus. E se vocês me recompensarem agora, que recompensa terei eu no céu?

Agradeceu o carinho das pessoas, mas devolveu o presente. Não aceitou a honra.
Muitas pessoas não entenderam, algumas acharam que ele era um arrogante, um mal-agradecido. Outras compreenderam a profundidade do gesto. Nosso trabalho deve ser para Deus, para o bem comum, para a sociedade, para diminuir a miséria da existência humana e não para nossa honra ou nossa glória. Não para nós mesmos. Então, caros vereadores e cara plateia, quero lhes dizer que hoje, nesse momento especial em que desejam me outorgar o título de cidadão honorário de Curitiba, eu, lembrando do  meu avô, digo que: ... aceito de coração aberto e grato essa honra e que nem tudo o que nosso avô faz a gente tem que fazer igual. Não vou devolver esse presente, não!
Na verdade, o ensinamento que ele deixou eu tenho tentado seguir: fazer tudo como se fosse para Deus e não para nós mesmos.

Tenho em meu trabalho tentado simplificar os conceitos teóricos da educação e da psicologia para que pessoas de todas as formações e até aquelas que nenhuma formação têm, possam aprender e melhorar a interação com as crianças, com os estudantes, e uns com os outros. Não é tarefa fácil, mas faço com o coração feliz e realizado por saber que, como meu avô, posso trabalhar sem pensar na recompensa terrena, mas me alegrar com o crescimento das pessoas nas mais diferentes cidades de nosso país, especialmente em Curitiba.
Sou grato também a meu avô paterno que decidiu morar em Rolândia, onde nasci tempos depois. Ainda criança moramos em cidades do interior do Paraná como Japurá, Cianorte, São Tomé e Imbituva de onde saí com dez anos de idade para vir para a capital que me acolheu e me deu as oportunidades para meu crescimento profissional.

Agradeço a todas as pessoas que direta ou indiretamente me ajudaram, incentivaram e me apoiaram. Tive meus vales e montanhas, como a Gilgreice cantou e que mesmo neles a presença divina me confortava.

Iniciei como professor de Matemática e nas aulas da licenciatura perguntava:   “professor, por que os alunos amam matemática enquanto outros odeiam?”    E a resposta que ouvi foi: “amor e ódio é da psicologia, não da matemática”.
Fiz psicologia. Lá, os professores me diziam: “gostar de aprender matemática é do campo da educação, não da psicologia”.
Fiz mestrado em educação. Perguntei: “Por que alguns amam matemática e outros odeiam? Os professores de matemática disseram que a psicologia responderia, os psicólogos disseram que os educadores responderiam, então pergunto a vocês o porquê.”  Os professores do mestrado me disseram: “boa pergunta”! Tive que tirar minhas próprias conclusões. E uma delas é a de que o professor que sabe ser amigo, que exerce sua autoridade com acolhimento e justiça, que sabe rir dos próprios erros, e é bem humorado, que ama o que faz, esse ajuda o aluno a amar o que é ensinado. O mesmo acontece com os pais em relação a seus filhos. O contrário afasta.

Tenho tentado ajudar as pessoas a amarem o conhecimento, os princípios de educação, a respeitar a filosofia e a ética, a buscar a sabedoria. Tenho tentado ajuda-las a aprender a aprender. E quando não mais precisarem dos meus ensinamentos, é porque se tornaram autônomos, independentes e terei me tornado dispensável. Quando olho para meus filhos e vejo o quanto já não mais dependem de mim, o quanto pensam por suas próprias cabeças, fico feliz por ter cumprido meu papel. E mais feliz ainda por ver que tipo de homens e que tipo de mulher se tornaram. Martin e David, obrigado por terem feito minha vida de pai ter valido a pena. A Rebecca, que está longe, em trabalho social numa missão internacional, também me faz relembrar que pessoas valem mais que coisas, que a vida vale mais que dinheiro e que tudo isso pode sim ser colocado em prática como ela está fazendo.
Mas nem tudo é tão bonito e nem tudo é tão aparentemente perfeito. Sofri muito para acreditar que um dia eu pudesse ser alguém, que poderia ajudar outras pessoas ou que minha vida pudesse ser útil para quem quer que fosse. Na escola, antes do bullying ser conhecido por esse nome, eu era chamado diariamente de “pau de catar laranja, espanador de lua, urubu branco, perna de vela”  e mil outros xingamentos constantes que me traziam dor e ideias suicidas. A vida não tinha graça e era pesada demais para mim. Não é fácil ser adolescente, mas mais difícil ainda é ser adolescente muito alto, muito magro, muito branco e muito burro pra acreditar que isso fosse importante. Por sorte, eu tinha irmãos que me amavam, (Jeff, John, Audrey e Kennedy – como vocês podem ver, minha mãe gostava muito de ir ao cinema)  mãe, tia e avó que me bajulavam, me valorizavam e eu comecei a duvidar dos xingamentos. Comecei a acreditar que talvez eu pudesse dar certo na vida. Meu pai me falava: “você nunca vai me dar problema na escola, vai passar direto, dá pra ver”. E eu acreditei.
Nos últimos anos tive ajuda de algumas pessoas especiais a quem também sou grato como a Márcia Macionk e David Sasson que me abriram as portas para entender Feuerstein e a mediação da aprendizagem, o jornalista José Wille que me abriu as primeiras portas na mídia, a Adriana Karan do colégio OPET que me contratou pela primeira vez como professor, o Odilon Scroccaro que me contratou no colégio Santa Maria que investiu em minha formação profissional, a psicopedagoga Isabel Parolin que sabendo do meu dom para falar em público me apresentou ao Marcos Melo da Futuro Eventos onde estou até hoje palestrando. Há muitas outras pessoas que direta ou indiretamente foram importantes para mim, mas que não tenho tempo para nomeá-las agora. Mesmo assim, sou grato a elas.
Hoje estou aqui com uma carga enorme de histórias de sucesso, de fracasso, de alegrias, de tristezas e de realizações. E quando eu estava sobrecarregado, caminhando para uma estagnação pessoal, imerso numa solidão profunda que a vida me trouxe, veio a Jeanine Rolim, hoje minha noiva, e ficou ao meu lado. Ela me reapresentou para o Marcos neto do vovô José, filho da dona Jane, pai do Martin, da Rebecca e do David. Reapresentou-me para mim mesmo e me fez relembrar que posso me realizar sem culpa em aparecer na TV ou no rádio para ensinar sem medo de parecer orgulhoso, arrogante ou prepotente, pois sei que a honra e a glória não são méritos meus, são de Jesus. E que reconhecer que sou importante na vida das pessoas não é ser metido, estrela ou celebridade, é cumprir a missão para a qual todos nós viemos. E por isso posso dizer do fundo do meu coração:
Curitiba, obrigado pelo carinho de me adotar como um de seus filhos e a todos vocês, do fundo do meu coração, muito obrigado!

Discurso de Marcos Meier na sessão especial da Câmara dos vereadores de Curitiba para outorga do título de cidadão honorário no dia 13 de dezembro de 2012, às 20h00 nas dependências da própria instituição.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

COMO FAZER CRIANÇA COMER VERDURAS


Marcos Meier em sua coluna semanal "A arte de educar" no jornal Bom dia Paraná da RPC-TV afiliada da rede Globo. O tema é "como fazer seu filho comer verduras". Dar chocolate como prêmio resolve? Como comer frutas? O que é um prato saudável? Tem que obrigar a criança a comer?  Contatos pelo site www.marcosmeier.com.br

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Vovós plantam maconha:


Colheita da morte.

E disse o New York Times[1]: vovós colhem a maconha que plantam. Na Suazilândia, vizinha da África do Sul, as vovós estão numa situação amaldiçoada: seus filhos estão morrendo por causa da AIDS e deixam pra trás uma gigantesca prole de netinhos famintos.
Plantai repolho ou milho, frutos da terra que recebestes como herança. Impossível, os babuínos roubam tudo. Como os macacos não fumam, o jeito é plantar a erva. E a erva será trocada por comida. E a polícia lhes será problema. Ela não quer saber das oito boquinhas resultantes do inevitável “crescei e multiplicai-vos”. Vovós não comem marijuana, precisam vende-la.
Os netinhos não sabem o que fazer. Não entendem porque suas vovós precisam plantar escondido em clareiras no meio do mato e porque a polícia não lhes dá comida, apenas tocam fogo no que a vovó, com o suor do seu rosto, plantou.
Dona Makhazin tem oito barriguinhas para dar-lhes do fruto da terra. Esperava poder descansar e ser cuidada pelos filhos que honrariam pai e mãe.
Mas o anjo da morte não colhe repolhos nem milho nem maconha. Colhe jovens casais portadores do HIV. Levou suas duas filhas e seus dois genros. Não as crianças, pois ainda não se contaminaram pelo fruto do pecado. Nem a vovó que há tempos não morde mais a maçã.
A polícia já profetizou: da próxima vez que tiver que queimar uma plantação, a levará para a cadeia. Dona Makhazin deseja levar os oito esqueléticos com ela. Talvez na cadeia haja luz, pão e água.
Mas a polícia não recolhe famintos. Nem vovós de bom coração. Nem dá a outra face. Ela quer os traficantes, os atravessadores. E vai voltar de surpresa.
A senhora de cabelos brancos mudou-se para mais longe, onde a polícia não sabe chegar. Nem os repolhos, nem o milho. Só chega a vontade de escapar da colheita da foice negra.
E a vovó começa a plantar. No meio do mundo. No meio de uma clareira. No meio do pó. No meio do nada.

Marcos Meier é psicólogo, escritor e palestrante. Contatos pelo site www.marcosmeier.com.br  Seus livros se encontram no site:  www.kapok.com.br


[1] Notícia reproduzida no Jornal Diário do Comércio, pág. 11. De 28 de agosto de 2012.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Pare de tentar agradar ao mundo todo!



Texto extraído do livro "Peixe Boi" de minha autoria, disponível no site www.kapok.com.br

terça-feira, 10 de julho de 2012

Estética do Absurdo





Estética do absurdo.
(Jeanine Rolim)

Ontem soube de mais uma pessoa que perdeu a vida em meio a uma cirurgia estética. Procuro não ser radical em nenhuma questão da vida, mas confesso que essa é uma daquelas que me aflora a mais visceral indignação. 

A tormenta que nos acomete diariamente nas propagandas de Tv, nas páginas de revistas , sites e redes sociais faz com que nos sintamos sempre aquém do que  verdadeiramente somos, menos do que sonhamos e tudo mais de menos que alguém possa sentir.

Gorda demais, baixa demais, alta demais, bochechuda demais, cabelo crespo (ou liso) demais, seio pequeno demais e por aí vai. Em 30 segundos vamos de um estágio de normalidade psíquica à insanidade da estética do absurdo. Nada mais está bom. Precisamos mudar!

Há pouco, pra fechar o dia, li um post de um renomado jornal brasileiro no qual a foto do ator Reinaldo Gianecchini tinha como legenda a seguinte frase “Gianecchini exibe o novo visual após a quimioterapia. Aprovam?”  Seria eu a única indignada com a manipulação midiática e seu bullying coletivo ou isso é realmente desprezível?? O cara supera um câncer, está ainda em tratamento e os veículos de comunicação nacional gastam seu espaço e tempo para perguntar se ele está “gato”?! Algum ser humano desse planeta insignificante tem que aprovar? E cá entre nós,  confesso que na minha opinião ele está ainda mais lindo com aqueles cabelinhos grisalhos, mas o que importa isso diante do milagre da vida, do desafio de seguir respirando a cada manhã, da esperança em prosseguir? Meu Deus, temos colocado por prioridade o formato dessa massa perecível que carregamos entre nossos ossos que ao pó retornará... É isso mesmo?? Quanta tolice!!

A pessoa que morreu era uma jovem que tentava reduzir o peso antes de uma primeira gestação, recém-casada, bonita, cheia de vida. Fácil julgá-la, difícil mesmo é pararmos de aceitar a “idiotização” coletiva transmitida em canais abertos e fechados. 

Popozudas das coxas mais duras que  mármore, seios mais inflados que balão de festa infantil, “bocas de bagre” e rostos engessados que nunca deixam claro estar rindo ou chorando. Todo mundo igual, padronizado, “coisificado”. Até quando acharemos isso normal??

Há um ditado indiano que diz: “Ao final da partida de xadrez o rei e o peão vão para a mesma caixa”, a questão é como viveram durante “a partida”, o que lhes foi mais importante. Vale refletir, não?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A feminilização do ambiente da pré-escola


A feminilização do ambiente da pré-escola

MEIER, Marcos. "A feminilização do ambiente da pré-escola." Revista Profissão Mestre. n. 52, janeiro, 2004, p.12-14.


Mochila completa, tênis amarrado, uniforme colorido, lancheira na mão. O menino animado, sorridente, brinca com os objetos como se fossem caminhões encantados que carregam “seu mundo”: desde areia – agora proibida para não sujar sua roupa – aos heróis invisíveis que mudam de poderes tanto quanto mudam os objetos à frente. O homem-aranha, o super-homem, o super-sei-lá-o-quê são invocados e despachados conforme a necessidade, conforme a imaginação. O trator, pequeno demais para carregar qualquer coisa maior que uma moeda, é o mais poderoso e mágico ser fantástico nesse universo das coisas que aparecem e desaparecem, guerreiam e caminham juntas. A "Ferrari", materialização do sonho do pai, corre mais rápido que o X-Man. Mas é hora de sair do colorido do seu mundo de encantos para entrar no carro e partir para o seu primeiro dia de aula. Alguns brinquedos, heroicamente, conseguem permanecer ao seu lado enquanto o motor é acionado.
Do outro lado, sorrisos maternos (às vezes paternos) tentam em vão esconder a dor de perceber que o filho será cuidado por outras mãos, talvez não tão carinhosas, talvez não tão compreensivas. A lembrança das notícias dos telejornais da noite cuidam de incrementar o sofrimento.
Fica comigo...
Em meio a todos esses sentimentos conflitantes e a correria dos compromissos profissionais suspensos por uma longa e angustiante hora, a dupla sai de casa. Logo chegam à escola e as dúvidas insistem em ressurgir: elas, as professoras, se aproximam. Orientam a mãe quanto ao número da sala. Sorriem para o menino, perguntam seu nome, fazem-lhe carinhos. Tornam o ambiente acolhedor. Os medos da mãe se abrandam por seu filho, mas não desaparecem, pois observa outras crianças que choram, que esperneiam. Algumas correm para o parquinho, parece que já conhecem os melhores lugares, são "antigos" na casa.
O menino, com olhar triste, diz: "mãe, fica comigo". Ela, por um instante, recebe dos céus a recompensa por anos de atenção, carinho, brigas, choros, sorrisos e sonhos. Não há nada no mundo mais significativo que esse olhar inocente cheio de dengos e de pequenos medos. O tempo parece parar. Ele a ama. A mãe, com um sorriso, diz que depois voltará para buscá-lo e que ele precisa ficar ali, pois as professoras são muito legais e há muitas crianças para brincar. Dos dois lados, lágrimas. As dela, contidas por enquanto.

Os super-heróis e a Ferrari precisam ficar em casa?
Depois de alguns dias e choros, o menino já está acostumado com o novo ambiente. Corre para o parquinho. Esquece de dizer "tchau" à mãe. Tudo parece ter entrado em seus eixos como a vida deve ser. No entanto, algumas coisas ocultas jamais serão notadas. Não há na parede da sala nenhum trator. Algumas identificações com suas fantasias, brincadeiras e sonhos ficaram de lado. Os super-heróis ficaram em casa. Os incríveis poderes de aparecer e desaparecer, de voar, carregar e de erguer estão no quarto. Talvez estejam na sala de estar enquanto a mãe não tropeçar neles e os levar para a caixa dos brinquedos.
A escola não parece ser lugar para essas coisas "tão violentas". Nas paredes das salas e dos corredores, com pequenas imperfeições na perspectiva dos desenhos, está o incrível mundo maravilhoso do açúcar cor-de-rosa. Tudo parece adocicado. Nuvens branquinhas sorrindo. Fadas voando com suas asinhas transparentes. Ursinhos de pelúcia e seus intermináveis sorrisinhos fofinhos. Uma infinidade de outros diminutivos. A doçura do acolhimento. A Ferrari, bem, o Rubinho que me perdoe, mas a Ferrari aqui na escola, nem em segundo lugar. Essa escola é das mulheres. A professora, a faxineira, a cantineira, a inspetora, a professora auxiliar, a de Artes, a de Música, a de Inglês, aquela outra mulher que cuida de não sei bem o quê. Todas mulheres. Quando um homem surge, é porque vem buscar alguma coisa, carregar alguma caixa. Trazer uma TV. Os olhares de todos os cantos o constrangem. Precisa sair logo, é quase um invasor.

O despertar dos símbolos e a reflexão
Esse relato não é uma crítica, não é símbolo de nenhuma bandeira, de nenhum movimento. Não é o retrato de todas as escolas. Não serve para algumas pré-escolas das nossas cidades. É tão somente um convite à reflexão. Um despertar para que se acolham pequenos símbolos, pequenos detalhes que, com muito bom senso, possam representar ou servir de objetos de identificação da masculinidade dos pequenos "rubinhos" e dos pequenos "super-eu-consigo" e dos "X-sou-bom".
A escola pode e deve acolher a masculinidade e a feminilidade presentes em todas as crianças, considerar, incentivar e despertar as diferenças. Pode e deve ressaltar o quanto são complementares, jamais excludentes. Deve criar um ambiente para permitir que, em cada criança, possa haver um equilíbrio maior entre as características humanas presentes neles e nelas, do acolher e do brigar, do empurrar e do abraçar, do lutar e do unir-se. Pois não são características pertencentes ao homem ou a mulher, mas a todo ser humano, homem e mulher, que incansavelmente precisam ser e estar no mundo e, de preferência, harmoniosamente juntos. São representações da busca pelo novo, da ousadia, do saber impor-se e do saber dizer não quando se quer dizer não, saber dizer sim quando realmente for a melhor resposta. Tais posturas frente ao mundo são frutos não do masculino ou do feminino, mas do equilíbrio entre eles. E são fundamentalmente necessários para futuros homens e mulheres conscientes de seus papéis na sociedade.
— Pai, na minha sala tem um tratorzão gigantão maior que esse daqui ó....
— Uau! que legal né, meu filho?
— É. Minha escola é bem legal.
E a convivência harmoniosa do “mundo feminino” com o “mundo masculino”, possivelmente um e outro estereotipados num primeiro momento, servirá de solo fértil para o crescimento da convivência, da tolerância, do respeito e, principalmente, do aceitar-se e completar-se mutuamente.

O exercício das trocas entre meninos e meninas
Mais tarde, homens e mulheres saberão respeitar os espaços e idiossincrasias de cada um, pois terão aprendido, desde muito cedo, que podem conviver em harmonia. Cada um saberá, com melhor propriedade, considerar internamente suas forças de ataque e de defesa, de acolhimento e de afastamento, de aceitar e rejeitar, e, principalmente, de ser íntegro, completo. Pois meninos e meninas carregam em si o masculino e o feminino que só se desenvolvem completa e saudavelmente no exercício das trocas. Muito provavelmente esse crescimento não será mérito da escola, mas, certamente, terá ocorrido com sua contribuição.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Peso ou enfeite?


Peso ou enfeite?




O sujeito era um famoso engenheiro civil, bem sucedido. Proprietário de uma construtora. Gostava de valorizar pessoas trabalhadoras. Tinha muitos amigos importantes: políticos, empresários e um pedreiro. Isso mesmo: um pedreiro. O pedreiro era uma pessoa simples, de bom coração e muito eficaz na arte de assentar tijolos. Às vezes, passavam algum tempo juntos após o horário, conversando sobre a vida e sobre detalhes dos acabamentos. Gostavam de ir a uma lanchonete na esquina, próxima à construtora para tomar um café e ficavam ali trocando ideias. 
Certo dia o pedreiro trouxe uma notícia que iria mudar para sempre a situação patrão-empregado. Ele abrira sua própria empresa de reformas e não trabalharia mais naquela construtora. A notícia foi triste por um lado, mas muito boa por outro, pois o engenheiro ficava feliz em perceber o sucesso e o crescimento de seu amigo. No dia da despedida, foi organizada uma pequena cerimônia, um coquetel para que a construtora pudesse homenagear seu funcionário que durante tanto tempo havia investido seu trabalho nas obras e o fizera com tanta presteza. Nesse momento, o pedreiro buscou sua “colher-de-pedreiro”, lavou-a e disse a todos: “Quero dar essa colher ao meu melhor amigo, ela foi do meu pai, o cabo foi feito com a madeira de uma laranjeira que ficava no fundo da minha casa. Ela é especial para mim. Todas vezes que eu a uso, lembro de papai, da minha infância, dos meus irmãos correndo no quintal em volta da laranjeira”. E entregou-a ao engenheiro. Emocionado, o engenheiro agradeceu e disse a todos que faria um gesto igual. Foi até o carro e trouxe sua calculadora ultramoderna presenteando-a ao pedreiro dizendo: “agora que você vai ser empresário, vai precisar calcular seus lucros, que espero que sejam muito grandes”. Despediram-se com um abraço. Teriam chorado, mas o ambiente não facilitava. Tempos depois, o engenheiro foi visitar a empresa de reformas de seu amigo pedreiro e viu a calculadora sendo utilizada como peso para papéis. Ele riu e falou: “você usa a melhor calculadora do mercado como peso de papéis?” Era realmente estranha a situação. Um objeto da alta tecnologia sendo utilizado apenas como peso. O pedreiro, com ar de quem estava envergonhado, disse: “me perdoe, amigo, mas não tenho tantas contar para fazer e quando preciso, uma calculadora simples dá conta do recado. Essa que você me deu é fantástica, mas pra mim que sou simples, é muito complicada. O engenheiro riu quando lembrou que a colher que ele próprio havia recebido tinha sido lixada, pintada e servia como enfeite em uma prateleira em seu escritório. Nenhum dos dois objetos estava sendo utilizado em suas funções originais. Não haviam sido fabricados para o que estavam “fazendo” atualmente. Perderam o valor inicial, não serviam para mais nada além de “peso” ou de “enfeite”. Por mais que o pedreiro diga que a calculadora está sendo útil, ela não está sendo usada como calculadora, apenas como peso. Mesmo que o engenheiro afirme que o destino da colher é nobre, ela não está sendo útil como colher.
Essa história me faz pensar na minha função como professor. Qual é realmente nossa função? Antigamente era ensinar. Hoje sabemos que não basta. A real função de um professor, a única forma de ser útil e de se realizar como profissional é fazer aprender. Se um professor não faz aprender, serve apenas como peso, talvez um peso na vida de seus alunos. Se um professor não promove a aprendizagem, talvez esteja sendo apenas enfeite. Pode até ocupar espaço na escola, na sala de aula, ou na vida de seus alunos... mas de nada serve. Não há boa intenção nem bom coração que possam superar o sentimento de realização de sermos o que realmente somos: provocadores da aprendizagem. Isso nos realiza.

Marcos Meier é professor, psicólogo, escritor e palestrante. Suas obras se encontram na loja virtual www.kapok.com.br