quarta-feira, 17 de abril de 2013

FILHO, VENHA ME BUSCAR!


Filho, venha me buscar.



Meu filho mais velho acaba de “tirar a carteira”. Está dirigindo bem, não perde uma oportunidade. “Pai, posso ir dirigindo?” já virou frase rotineira.
Sábado de manhã cheguei ao aeroporto Afonso Pena cansado, com sono, irritado pelos atrasos e liguei para casa. “Filho, venha me buscar. Acabei de chegar”.
Para minha surpresa, tivemos um diálogo mais ou menos assim:

-          Não dá pai, você não deixou os documentos do carro em casa, você esqueceu e levou junto.
-     Ah, é mesmo! Estão aqui comigo. Bem, mas venha assim mesmo, pegue o carro e passe aqui no aeroporto, vou te esperar.
-          Pai, não dá. É proibido andar sem os documentos do carro.
-         Mas não tem problema, se tiver uma blitz você me liga e eu vou até você de táxi com os documentos.
-          Nem pensar. É contra lei andar sem os documentos do carro. Venha de táxi agora.
-          É muito caro desde o aeroporto, você não vai me fazer gastar dinheiro vai?
-          Não é minha culpa. Venha de ônibus.

Fui de ônibus. No caminho, pude refletir a respeito dessa minha vacilada na educação de meu filho. A gente erra, acerta, faz o melhor que pode. Dessa vez, errei. Mas, para minha alegria, pude perceber que os princípios e os valores quando ensinados e vividos no dia-a-dia, permanecem. Os erros que a gente comete, os momentos em que não somos exemplos de vida, não chegam a estragar o longo trabalho realizado durante anos a fio.
Senti uma forte sensação de realização. Meu filho é um homem que não cede a pressões psicológicas se tais pressões estiverem contra seus princípios, contra seus valores.
Na Psicologia, sabemos que a constância da nossa relação com os filhos produz neles a qualidade emocional necessária para enfrentar a vida e suas dificuldades. É nessa interação de qualidade que auxiliamos nossos filhos a desenvolver segurança emocional, resistência a frustrações, tranqüilidade nos conflitos e, o que é principal, uma autoestima suficientemente adequada para não vacilar diante das pressões sociais, para não ficar inseguro diante dos conflitos que a vida propõe.  Autoestima saudável dá a nossos filhos a real dimensão do valor que eles têm e do potencial que está à disposição deles na hora de enfrentar novos desafios. Não uma autoestima inflada por uma visão irreal do mundo e que acaba produzindo jovens agressores. Não uma autoestima fragilizada que não lhes permite acreditar que é possível ser significativo nessa sociedade. Mas uma autoestima tão bem construída que permite que se diga: “Pai, pegue um ônibus”.
Nunca andei de ônibus tão feliz.

(Extraído do livro Sapatos e Letras  - Marcos Meier, Editora Melo. 2008)

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