quinta-feira, 14 de junho de 2012

Peso ou enfeite?


Peso ou enfeite?




O sujeito era um famoso engenheiro civil, bem sucedido. Proprietário de uma construtora. Gostava de valorizar pessoas trabalhadoras. Tinha muitos amigos importantes: políticos, empresários e um pedreiro. Isso mesmo: um pedreiro. O pedreiro era uma pessoa simples, de bom coração e muito eficaz na arte de assentar tijolos. Às vezes, passavam algum tempo juntos após o horário, conversando sobre a vida e sobre detalhes dos acabamentos. Gostavam de ir a uma lanchonete na esquina, próxima à construtora para tomar um café e ficavam ali trocando ideias. 
Certo dia o pedreiro trouxe uma notícia que iria mudar para sempre a situação patrão-empregado. Ele abrira sua própria empresa de reformas e não trabalharia mais naquela construtora. A notícia foi triste por um lado, mas muito boa por outro, pois o engenheiro ficava feliz em perceber o sucesso e o crescimento de seu amigo. No dia da despedida, foi organizada uma pequena cerimônia, um coquetel para que a construtora pudesse homenagear seu funcionário que durante tanto tempo havia investido seu trabalho nas obras e o fizera com tanta presteza. Nesse momento, o pedreiro buscou sua “colher-de-pedreiro”, lavou-a e disse a todos: “Quero dar essa colher ao meu melhor amigo, ela foi do meu pai, o cabo foi feito com a madeira de uma laranjeira que ficava no fundo da minha casa. Ela é especial para mim. Todas vezes que eu a uso, lembro de papai, da minha infância, dos meus irmãos correndo no quintal em volta da laranjeira”. E entregou-a ao engenheiro. Emocionado, o engenheiro agradeceu e disse a todos que faria um gesto igual. Foi até o carro e trouxe sua calculadora ultramoderna presenteando-a ao pedreiro dizendo: “agora que você vai ser empresário, vai precisar calcular seus lucros, que espero que sejam muito grandes”. Despediram-se com um abraço. Teriam chorado, mas o ambiente não facilitava. Tempos depois, o engenheiro foi visitar a empresa de reformas de seu amigo pedreiro e viu a calculadora sendo utilizada como peso para papéis. Ele riu e falou: “você usa a melhor calculadora do mercado como peso de papéis?” Era realmente estranha a situação. Um objeto da alta tecnologia sendo utilizado apenas como peso. O pedreiro, com ar de quem estava envergonhado, disse: “me perdoe, amigo, mas não tenho tantas contar para fazer e quando preciso, uma calculadora simples dá conta do recado. Essa que você me deu é fantástica, mas pra mim que sou simples, é muito complicada. O engenheiro riu quando lembrou que a colher que ele próprio havia recebido tinha sido lixada, pintada e servia como enfeite em uma prateleira em seu escritório. Nenhum dos dois objetos estava sendo utilizado em suas funções originais. Não haviam sido fabricados para o que estavam “fazendo” atualmente. Perderam o valor inicial, não serviam para mais nada além de “peso” ou de “enfeite”. Por mais que o pedreiro diga que a calculadora está sendo útil, ela não está sendo usada como calculadora, apenas como peso. Mesmo que o engenheiro afirme que o destino da colher é nobre, ela não está sendo útil como colher.
Essa história me faz pensar na minha função como professor. Qual é realmente nossa função? Antigamente era ensinar. Hoje sabemos que não basta. A real função de um professor, a única forma de ser útil e de se realizar como profissional é fazer aprender. Se um professor não faz aprender, serve apenas como peso, talvez um peso na vida de seus alunos. Se um professor não promove a aprendizagem, talvez esteja sendo apenas enfeite. Pode até ocupar espaço na escola, na sala de aula, ou na vida de seus alunos... mas de nada serve. Não há boa intenção nem bom coração que possam superar o sentimento de realização de sermos o que realmente somos: provocadores da aprendizagem. Isso nos realiza.

Marcos Meier é professor, psicólogo, escritor e palestrante. Suas obras se encontram na loja virtual www.kapok.com.br  

4 comentários:

Anna Silva disse...

Mto bem colocado!

Anônimo disse...

Ótimo texto!! Como sempre, alías.
Paula

Jeanine Rolim disse...

Lindo texto querido ;)
Beijo.
Nina

Profe. Paula disse...

O texto me chamou pelo título... e sem dúvida me prendeu até o fim pela verdade em cada palavra, em cada construção dos sentidos...Amei.
Obrigada pela enorme colaboração.